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Neuropsicanálise:Uma interface entre neurociência e a psicanálise para o estudo do novo inconsciente. Trabalho das Dras. Amanda Abreu Soares e Silviane Andrade

 

NEUROPSICANÁLISE: UMA INTERFACE ENTRE NEUROCIÊNCIA E A PSICANÁLISE PARA O ESTUDO DO NOVO INCONSCIENTE

 

NEUROPSYCHOANALYSIS: AN INTERFACE BETWEEN NEUROSCIENCE AND PSYCHO-ANALYSIS FOR THE STUDY OF THE NEW UNCONSCIOUS

AMANDA RAFAELLA ABREU SOARES[1]

SILVIANE ANDRADE[2]

 

RESUMO:

O presente artigo apresenta o conceito de Neuropsicanálise, suas origens teóricas e algumas de suas contribuições para os campos da Neurociência e da Psicanálise. Também contem um resumo dos avanços mais recentes em neurociência, se tratando do conceito de Novo Inconsciente. E tem como principal objetivo, verificar a interface no campo da neurociência e psicanálise em diferentes pontos de vista. Trata-se de um estudo de revisão realizado no período de novembro/2012 a abril/2013, utilizando descritores do Scielo, Google Acadêmico, e DeCS e tendo como base, artigos originais e revisões sobre neuropsicanálise, psicanálise e neurociência. Pode-se concluir que o estudo da neuropsicanálise contribui paradescobrir quais áreas do cérebro correspondem aos fenômenos descritos por Freud, fazendo com que haja uma expansão dos limites epistemológicos das áreas em questão na tentativa de apresentar conceitos, contribuições e as raízes da neuropsicanálise, compreendendo os conhecimentos que a neurociência e a psicanálise tem em comum.

 

Palavras – chave: Psicanálise; Neurociência; Neuropsicanálise; Novo Inconsciente; Inconsciente.

 



[1] Graduada em Psicologia pela Faculdade Santo Agostinho. Especializanda em Neuropsicologia – Centro Universitário Christus - UNICHRISTUS

[2] Professora e coordenadora da pós graduação em Neuropsicologia da Unichristus e mestre em

Neurociências

 

INTRODUÇÃO

A neuropsicanálise constitui uma via interdisciplinar que possibilita entender a estrutura e a funcionalidade do cérebro humano. A dinâmica da teoria psicológica da consciência relacionada à eficácia da técnica psicanalítica pode vir a ser demonstrada empiricamente pela pesquisa em neurociência. Com essa integração da psicanálise com a neurociência a grandeza de Freud no campo mental vai acabar sendo algo como a de Darwin no campo biológico (Solms, 2004).

O artigo em questão tem como objetivo, propor uma discussão sobre a neuropsicanálise mantendo as especificidades das ciências envolvidas: a neurociência e a psicanálise. Será importante ressaltar que o que torna a neuropsicanálise única é que além de também estudar o cérebro, ela é uma abordagem que tem como foco central os mais profundos, internos, processos dinâmicos inconscientes, como conflitos, a repressão defesa, e fantasia.

Justifica-se devido à estudos neurocientíficos que comprovam, a partir da realização de exames do cérebro em laboratórios de imagens de alta tecnologia, que a psicanálise — tida por muitos como um discurso ficcional — tem fundamento científico e comprovam que Sigmund Freud estava certo em suas descrições do funcionamento da mente humana. Através da leitura que autores fazem do campo psicanalítico, é possível sustentar a ideia em questão, seja de maneira crítica ou não. Os estudos de Cezimbra em 2012 constatam que os impulsos inconscientes movem o ser humano e sofrem repressão para não se tornarem conscientes. Tecnologias de imagens mostram que a psicoterapia também atua no cérebro, alterando circuitos neuroquímicos.

A partir disso, trata-se de uma pesquisa bibliográfica realizada no período de novembro/2012 a abril/2013, utilizando descritores do Scielo, Google Acadêmico, e DeCS e tendo como base, artigos originais e revisões sobre neuropsicanálise, psicanálise e neurociência, com o intuito de apresentar “investigações neuro-psicanalíticas” promovidas por determinados autores empenhados em sustentar essa ideia. Além disso, foram utilizados também livros impressos que abordavam os temas já citados acima com o objetivo de complementar os dados encontrados nos artigos pesquisados.

 

NEUROCIÊNCIA

A neurociência estuda as bases biológicas do comportamento. Esse campo de estudo tornou-se alvo de crescente interesse nos últimos anos à medida que as descobertas em neurociências ganham cada vez maior impacto.  Pode-se afirmar que certos ramos das neurociências como a neurobiologia das doenças mentais e as ciências cognitivas não teriam chegado ao estágio de desenvolvimento atual se não tivessem por base os conhecimentos atualmente existentes das bases biológicas do comportamento. (Brandão, 2004)

A raiz de nossos processos mentais está na organização dos mecanismos neurais a eles subjacentes, na forma que eles se determinam o que chamamos de funções mentais superiores. Assim, com o avanço experimentado pelas neurociências nos últimos anos tem se tornado possível discutir em termos científicos os processos que nos permitem ver, ou vir, sentir, entre outros. Com base nos estudos de Kandel em 1997, a neurociência engloba as mais diversas áreas de atuação como, por exemplo: a educação, a psicoterapia, medicina e muitas outras disciplinas capazes de aplicar cada vez mais novos conhecimentos sobre o sistema nervoso e a relação entre as funções cerebrais e mentais, ou seja, sua estrutura, seu desenvolvimento, funcionamento, evolução, relação com o comportamento e a mente, e também suas alterações.

Ao citar o objeto de estudo no presente artigo, o avanço da neurociência faz com que possamos revisar o conceito freudiano de inconsciente dinâmico e relacionar esse amplo processamento inconsciente com a psicoterapia levando em conta a transição da psicanalise para a neuropsicanálise. Aproximar a neurociência e a psicanalise, pode aumentar a eficácia de ambas, de modo que se possa perceber a relação entre a atividade neuronal e seus pilares: o inconsciente, o determinismo psíquico, a atenção flutuante e as relações objetais. Com a descoberta do inconsciente no final do século XX, pode-se constatar que fatores de natureza psicológica poderiam dar origem a sintomas físicos, e que eles necessariamente não eram decorrentes de lesões cerebrais.

A neurociência é uma das áreas que mais avança no conhecimento científico e possui grande impacto na compreensão do ser humano e da nossa sociedade. A psicanálise, ainda constitui um conjunto de teorias muito efetivas para o que se propõe (a 

psicoterapia, interpretação da cultura e a proposição de novas hipóteses sobre o funcionamento mental). Portanto, é definida como um método psicológico para dar significados a determinados processos mentais, e foi desenvolvida baseada nos atendimentos clínicos de Freud, e cada vez um número maior de neurocientistas e psicanalistas tentam construir uma interface entre as duas disciplinas(Barros, 2008).

A neurociência demonstra que existe um inconsciente e que pode ser representado em uma região do cérebro, ou seja, estudos analisam a natureza dos processos mentais inconscientes, a importância do córtex pré-frontal no comportamento e o tratamento pela psicofarmacologia associado à psicanálise, o que vem a confirmar os conceitos da psicanalise em relação ao inconsciente e em relação à anatomia cerebral. A cientificidade desta pratica no campo da neurobiologia, permite que muitos fenômenos psíquicos que antes exigiam explicações metapsicológicas, hoje, estejam encontrando explicações por meio de circuitos neuronais, sinapses que ligam as vias de condução entre os neurônios, e estes, com o sistema hipófise, hipotálamo e supra-renal, e também com primitivas áreas cerebrais subcorticais. Já a psicanalise, possui bases na ciência clássica e provocou uma revolução no estudo da mente humana, dando ênfase ao inconsciente e ao determinismo psíquico. Ambas, podem e devem caminhar juntas se as especificidades das disciplinas forem mantidas(Solms, 2004).

Atualmente, os estudos que envolvem a neurociência da mente vêm contribuindo com os estudos da psicanálise como um todo, em suas diversas abordagens. Com base nisso, o conceito atual de plasticidade cerebral, mapas neuronais e suas sinapses sempre em mudança devido à realidade interna e externa, dá base orgânica estrutural para a teoria e a prática psicanalítica contemporânea.

Se por um lado, a psicanalise atual contribui cada vez mais para a compreensão da mente humana, seus distúrbios e tratamento, por outro, as neurociências vem confirmando inúmeros postulados psicanalíticos modernos nos estudos das funções cerebrais. Sendo assim, a importância desse estudo na prática analítica é que ao ter um conhecimento consciente dos fenômenos com raízes inconscientes e suas devidas explicações baseadas em causas orgânicas, os analistas podem nomear para si, e ocasionalmente para o paciente, as arcaicas sensações e experiências emocionais primitivas que até então não tinham nome. Por exemplo, o surgimento, muitas vezes 

inexplicável, de terríveis sensações de angustia, que atualmente adquiriu uma compreensão consciente, um nome e, consequentemente um manejo clínico que se constitui em um fator altamente significativo no que se refere à questão de como agem as terapias analíticas (Callegaro, 2011).

Os estudos psicanalíticos como um todo, faz com que possamos acreditar que o processo inconsciente está sempre trabalhando e como exemplo existe estudos da neurociência envolvendo processos de soluções inconscientes, onde o neurocientista Ullrich Wagner da Universidade Lubeck, Alemanha, demonstrou o quão poderoso pode ser o processamento de memórias no sono.

Mesmo com muitas críticas para com a relação do modelo de Freud e a neurociência, uma vez que são duas abordagens com estruturas conceitual e epistemológica que utilizam diferentes métodos de investigação, estudos recentes revelam que as proposições freudianas sobre a mente, são consistentes com os dados neurocientíficos e que as descobertas feitas até então se encaixam progressivamente às ideias freudianas. Há inúmeros casos que envolvem a psicanálise e a neurociência contribuindo cada vez mais para compreensão da mente humana, seus distúrbios e seu tratamento. A neurociência contribui para os postulados psicanalíticos modernos envolvendo as funções cerebrais, não deixando de lado as contribuições da ciência do inconsciente (Andrade, 2003).

O campo de trabalho neuropsicanalítico é derivado do método neuropsicológico de Luria, e a psicanálise passa a estender sua capacidade clínica iniciando o tratamento de pacientes com lesões neurológicas. Portanto, a psicoterapia envolvendo a psicanálise, reorganiza o psiquismo implicando em uma nova configuração neural alterando a atividade neurofisiológica e neuroquímica nas regiões do cérebro associados à percepção, à dor e as expressões emocionais. 

 

PSICANÁLISE

 

A psicologia emergiu gradualmente durante o século XIX e seu principal objetivo englobava os fenômenos cognitivos da memória, inteligência e percepção. Segundo Freud, psicanálise é o nome de um procedimento para a investigação dos processos mentais, um método para o tratamento de distúrbios neuróticos e uma coleção de informações psicológicas obtidas a partir da técnica e da psicoterapia se acumulando em uma nova disciplina. A psicanálise pode ser entendida como uma teoria da mente ou como um método de tratamento que engloba o trabalho em psicoterapia intensiva e diversos estudos quantitativos tem esclarecido o funcionamento do inconsciente.

 

Durante anos, uma das principais críticas à psicanálise era a ausência de comprovação científica. Devido ao avanço na técnica de neuroimageamento, foi possível estudar os efeitos cerebrais do método da “cura pela fala”. Pesquisas apontam que o método psicanalítico causa alterações em áreas neurais relacionadas à tomada de decisão e ao controle das emoções.Pode-se considerar que a psicanálise teve suas origens na neurociência a partir do momento que Freud sob a influência do neurologista inglês Hugh-lings Jackson, começou a se dar conta de que determinadas manifestações cerebrais não apareciam em autópsias por serem fenômenos de natureza psicológica e, por outro lado, não se encerravam em localizações restritas em centros no cérebro. Foi nesse período que houve o marco do localizacionismo baseado nos achados de Broca e Wernick, e que Freud iniciou seus estudos sobre a afasia e as perturbações de movimentos voluntários (Soussumi, 2004).

 

 

Há mais de 100 anos, Freud já havia iniciado seus estudos como neurocientista, e escreveu sobre síndromes neuropsicológicas, entre elas a afasia e a paralisia cerebral infantil. De acordo com seus escritos(1895), a afasia é uma desordem neurológica que compromete a capacidade de pronunciar palavras ou nomear objetos, e a partir do estudo das afasias pode-se estudar o ato falho, o lapso, chiste, histeria, entre outros. Em relação à paralisia cerebral infantil, Freud praticamente criou esse termo em 1897 e deu a entender em seus escritos, que o paciente acometido por ela ficará imobilizado dependendo do grau lesional (Callegaro, 2011).

Em 1950, o psiquiatra e psicanalista norte-americano Mortimor Ostow, começou a escrever artigos sobre as relações entre funcionamento cerebral e psicanálise, e foi o primeiro psicanalista a utilizar o método psicanalítico em complementaridade com a terapêutica psicofarmacológica. Diz-se sobre ele que foi dos poucos a estar presente e ativo nas três grandes revoluções da psiquiatria: psicanálise, psicofarmacologia e neurociências. Por volta de 1990, o instituto de psicanálise de Nova Iorque começou a organizar conferências sobre a interdisciplinaridade entre neurociências e psicanálise. Esta iniciativa foi desenhada por Arnold Pfeffer e levada adiante por Mark Solms, atual presidente da Sociedade Internacional de Neuropsicanálise.

Outro fato importante envolvendo a psicanálise freudiana e os estudos sobre a mente humana foi a descoberta dos neurônios-espelho. Os neurocientistas responsáveis por esse feito são Giacomo Rizzolatti, Vittorio Gallese e Leonardo Fogassi da Universidade de Parma/Itália. Para cientistas como Vilayanur Ramachandran, da Universidade da Califórnia de San Diego, os neurônios-espelho vão fazer pela psicologia o que o DNA fez pela biologia. MD Magno, também psicanalista, tem afirmado tese semelhante desde 1982, quando postulou o aparelho lógico do Revirão[1](um princípio de espelho absoluto) como modelo de funcionamento de nossa mente. Essa competência de nossa mente – agora também comprovada biologicamente no cérebro com a descoberta dos neurônios-espelho – é que dá origem à linguagem humana e sua intrincada estrutura gramatical.



[1] Modelo do funcionamento geral da mente ou psiquismo, compatível teórica e praticamente com o Inconsciente descrito por Freud, compreendido como reversível, sem negação, sem temporalidade e sem marcação de diferença. 

 

Estudos da neurociência cada vez mais colaboram com os estudos da psicologia analítica, e segundo Carlos Pacheco(2011), o conceito atual neurocientífico de plasticidade cerebral, das redes ou mapas neuronais com suas miríades de sinapses sempre em mudança de maneira ativa em contato com aquilo que vem da realidade interna e externa, dá uma base orgânica estrutural para a teoria e práticas psicanalíticas atuais. A neurociência vem mostrando como o estar consciente depende da sincronização, da sintonia entre várias estruturas corticais e subcorticais.

 

Conclui-se que a psicanálise atual contribui cada vez mais para compreensão da mente humana, seus distúrbios e seu tratamento. Entretanto, os neurocientistas não podem mais deixar de lado as contribuições da ciência do inconsciente (a psicanálise), assim como psicanalistas não desprezam os desenvolvimentos dos conhecimentos das ciências cognitivas e das neurociências em geral. Pode-se considerar a Neuropsicanálise como a disciplina que está estrategicamente melhor colocada para fornecer novas contribuições para aquela que é, talvez, a mais atual e complexa das questões epistemológicas: a relação mente-cérebro-corpo.

 

 

 

NEUROCIÊNCIA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A PSICANÁLISE

 

Ao criar a psicanalise, o médico austríaco Sigmmund Freud, deu inicio a um procedimento para investigação dos processos mentais com ênfase no tratamento de distúrbios neuróticos. Mesmo antes disso, Freud desejava tornar o seu método uma ciência construída sobre o rigor do paradigma metodológico dominante da sua época e, com os avanços da neurociência, surge um novo campo de estudo capaz de entender a estrutura e a funcionalidade do cérebro humano tendo como elo o desenvolvimento filogenético e ontogenético. Esse campo é denominado neuropsicanálise.

Desde 1999, neurocientistas e psicanalistas se reúnem para discutir uma nova linha de estudo que une o universo da neurociência e da psicanalise, dando origem a neuropsicanálise. No ano 2000, foi realizado o 1º Congresso Internacional de Neuropsicanálise, contando com a participação de Eric Kandel, Damásio, Sacks, Charles Brenner, entre outros. A partir desse episódio, a Sociedade Internacional de Psicanálise foi formada e a cada ano, um novo congresso vem sendo realizado com o objetivo de 

consolidar as posições teóricas e metodológicas necessárias para estabelecer um elo entre Psicanálise e Neurociência.

 

Kandel enfatiza que, a Psicanálise entrou em declínio no século XXI por não ter desenvolvido métodos objetivos para testar suas ideias e ele ainda acrescenta, que isso só pode ser possível através de sua aproximação teórico-metodológica com a Biologia e a Neurociência Cognitiva, o que para este autor, será o ponto de partida para que a psicanálise recupere seu vigor intelectual, desenvolvendo uma nova e convincente perspectiva sobre a mente e suas perturbações. Consequentemente, a junção dessas duas disciplinas trará mudanças em dois aspectos do campo psicanalítico: sua metodologia e sua estrutura. Mas também pode trazer dois avanços para a Psicanálise: um conceitual e outro experimental.

 

No quesito conceitual, a Neurociência Cognitiva poderia prover um novo instrumento teórico para a evolução da Psicanálise; já no quesito experimental, Kandel(1999) afirma que insights biológicos poderiam servir de estimulo para pesquisas e para testar ideias específicas sobre como a mente funciona. Na prática, autores, como Clyman(1991) tem como objetivo explicar como ocorre a mudança durante o tratamento psicanalítico, sendo que essa explicação se daria a partir de conceitos e comprovações da Neurociência, noções estas, construídas a partir da aplicação de testes, por exemplo.

 

Já no Brasil, Suossumi(2003), é um dos pioneiros da Neuropsicanálise. Com base na análise de seus textos, ele a defende inicialmente de maneira contraditória, alegando que a psicanalise e a neurociência não podem ser reduzidas uma à outra, sendo ciências com objetivos e métodos próprios de investigação. De acordo com Soussumi(2003), a neuropsicanálise, pretende consolidar cientificamente os conceitos metapsicológicos resultantes da observação em anos de testagem na prática analítica. Cabe a Neurociência, auxiliar no reconhecimento e na correção dos erros, na afinação e na apuração dos dados imperfeitos e na correlação dos fenômenos psíquicos com os fenômenos neurais concomitantes ao nível dos órgãos, das células e das moléculas.

Portanto, com base em conceitos neurocientíficos sobre atenção, memória implícita e percepção, Soussumi(2004) nos sugere uma nova maneira de trabalhar a psicanálise. Ele percebeu que muitas vezes, os pacientes não estariam em condições para perceber 

em si, o que havia sido interpretado pelo analista, deixando-o confuso e perseguido, pois na verdade não tem a percepção dos registros de memória que estão em funcionamento. Sendo assim, acrescenta que a memória procedimental ou implícita, por funcionar automaticamente, dispensa a atenção e o exercício da percepção, a partir do momento em que a atenção se faz presente, dando origem a uma modificação no nível de consciência do paciente.

 

Essas evidencias experimentais são confirmações dos achados da clinica psicanalítica e Soussumi(2004) defende que o fortalecimento consciente das funções de atenção e percepção aliados ao fortalecimento das funções executivas, podem ser atribuídos à Instancia Secundária. Defende também que só interpretações psicanalíticas clássicas são insuficientes, pois durante a sessão de análise, surgem novas situações que também envolvem a atenção e a percepção. Mas que, depois de certo tempo, ocorre uma “evolução cognitiva” capaz de fazer com que os indivíduos ganhem controle sobre as emoções, sobre suas ações, sobre si e sobre o meio.

 

Outro psicanalista que contribui para o movimento neuropsicanalítico, é Vitor Manual Andrade. Andrade(2003) afirma que na Neuropsicanálise não há uma sobreposição de saberes, argumentando ainda que, a partir desse diálogo, para a Neurociência seria acrescentada a compreensão de como as relações afetivas são atuantes na modificação de circuitos neurais, referindo-se às recentes descobertas sobre a regulação bioquímica que envolve a relação mãe/bebê, e a contribuição da Psicanálise.

 

Um dos objetivos dos avançados estudos, até então em andamento, da Neuropsicanálise é o avanço do conhecimento, e assegurar às pessoas os efeitos benéficos da Psicanálise, fortalecendo ainda mais o seu lugar entre as ciências. Andrade(2003) afirma que o diálogo entre a Psicanálise e a Neurociência não faça com que elas deixem de lado suas especificidades, mas permitem visões diferentes de um mesmo objeto de estudo.   

Pode-se pressupor, a partir das leituras até então enfatizadas, que a neuropsicanálise representa um retorno ao Freud neurocientista e precursor da neurociência atual, fazendo com que a psicanalise estenda sua capacidade clinica iniciando o tratamento de pacientes com lesões neurológicas. Mark Solms, presidente da 

Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, faz dessa nova ciência uma adaptação para o estudo da atividade cerebral ligada aos fenômenos emocionais. Portanto, os estudos atuais na prática neuropsicanalítica pretendem relacionar as observações realizadas durante sessões de psicanalise com pacientes portadores de lesões cerebrais, aos diagnósticos realizados através do mapeamento cerebral com o objetivo de descobrir quais áreas do cérebro correspondem aos fenômenos descritos por Freud.

 

Dentro de um contexto bastante convergente entre a psicanálise a neurociência, surge o conceito de novo inconsciente tendo sua ascensão nas idéias de Kihlstron(1987), onde revisa a evolução do modelo inicial do inconsciente cognitivo no livro The New Unconscious(Glaser e Kihlstrom, 2005). Esse livro constituiu um marco na história da pesquisa científica até por enfatizar as principais diferenças entre o inconsciente cognitivo e o novo inconsciente envolvido no afeto, na motivação, na autoregulação, controle e metacognição.

 

Ao longo das duas últimas décadas, uma nova imagem do inconsciente cognitivo surgiu a partir de uma variedade de disciplinas que são amplamente parte da ciência cognitiva. Do ponto de vista social, cognitivo e neurocientífico, esse novo conceito engloba processos inconscientes capazes de realizar um processamento completo de informação, perseguir metas e além de outras funções que antes se pensava dependerem de intenção, deliberação e de percepção consciente.

 

Os estudos com o novo inconsciente ainda é um campo em construção, e psicólogos, psiquiatras, filósofos, neurocientistas, cientistas cognitivos, psicanalistas, entre outros, consideram essa nova definição um dos temas mais fascinantes da atualidade. Mas assim como qualquer descoberta, há aqueles que consideram o modelo radical e diferente, evitando fazer referencias à psicanalise e há aqueles que a consideram uma evolução inevitável do modelo freudiano, já que assimila as hipóteses do inconsciente dinâmico.

 

Cloninger (1999) defende a tese de que as pesquisas confirmam a ideia sobre os processos inconscientes ao afirmarem que:

...influenciam o comportamento, embora este seja um inconsciente mais abrangente do que o proposto por Freud. Em vez de criticá-lo por ter se enganado quanto a muitos detalhes da personalidade e suas bases inconscientes, é mais sensato creditar a Freud a sugestão de áreas que merecem ser investigadas e o fato de ter aberto portas para aqueles que ficaram intrigados com o inconsciente, mas insatisfeitos com a descrição dele.

 

Mesmo se assimilando ao inconsciente dinâmico, o conceito de novo inconsciente é maior e mais amplo e engloba algumas das hipóteses originarias das ideias de Freud. Ainda refere-se a fenômenos do cérebro, envolvendo uma gama de processamento inconsciente que opera quando ocorrem lembranças de eventos ou quando se usa corretamente as regras gramaticais.

 

A teoria freudiana foi o único referencial abrangente ate o final da década de 1980, que explica o funcionamento mental inconsciente. Nessa mesma época, a revolução cognitiva na psicologia. A moderna teoria de um inconsciente cognitivo fornece um substituto para o inconsciente dinâmico de Freud. O inconsciente coletivo nasce de uma visão ampla sobre a mente inconsciente com base nas ciências cognitivas, o que também pode ser considerado como um novo inconsciente.

 

O novo inconsciente é capaz de processar 200 mil vezes mais informação do que a mente consciente, e envolve milhares de circuitos neurais que se encarregam do trabalho rotineiro, deixando a consciência livre para a resolução de novos problemas. Se não fosse assim, o monumental trabalho realizado pelo cérebro para computar as características físicas dos estímulos externos inundaria nossa consciência, tornando-a inoperante. E vale ressaltar que a percepção consciente é baseada em um processamento sensorial que opera inconscientemente. Ou seja, o próprio pensamento ocorre fora da percepção consciente.

 

A hipótese do processamento inconsciente foi experimentada por alguns psicólogos na década de 70, e publicaram um artigo onde relatam os resultados de uma série de experimentos para investigar a percepção consciente das razões pela qual agimos (Nisbett e Wilson, 1977). Portanto, nessa experimentação, foi evidenciado que os sujeitos tomavam decisões manifestando preferência por determinados objetos sem ter o acesso consciente aos processos dessas escolhas.

Como se pode perceber, esse novo conceito de inconsciente resgata a noção freudiana de inconsciente até então negada pelas ciências cognitivas, embora implicitamente reconhecida naquilo que lhe é de fundamental importância: que não somos guiados apenas por nossa consciência, e que esta não passa da ponta visível de um iceberg que compõe o conjunto das funções mentais. 

 

CONCLUSÃO

 

Pode-se concluir que a psicanalise e a neuropsicologia não são comparáveis do ponto de vista epistemológico. A psicanalise centra-se na transferência e na causalidade psíquica inconsciente; e a neurociência se apoia em uma causalidade cientifica baseada no método experimental. A neuropsicanálise procura, através de uma abordagem inter e transdisciplinar, integrar os mais diversos níveis de evidência científica, unificados segundo o termo evidência empírica, num sentido abrangente. Podemos considerar a Neuropsicanálise como a disciplina que está estrategicamente melhor colocada para fornecer novas contribuições para aquela que é, talvez, a mais atual e complexa das questões epistemológicas: a relação mente-cérebro-corpo.

 

Ambas, tem o seu lugar em torno de um mesmo objeto de reflexão, e no acompanhamento de pacientes. Cabe à neurociência juntamente com conceitos neuropsicológicos, descrever os mecanismos da cognição e suas ligações com as estruturas cerebrais, e cabe à psicanalise investigar sobre o impacto que o dano cognitivo causa na historia pessoal inconsciente do individuo.

 

Sabe-se que não se pode negar as relações entre os mecanismos cerebrais, os processos biológicos e os processos químicos. As teorias neurobiológicas não abrangem totalmente o aspecto subjetivo da vida psíquica, e sendo assim, a psicanalise assume o seu lugar para que seja possível a compreensão da clinica dos pacientes neurológicos. Por fim, um dos principais objetivos da pratica neuropsicanalitica, é promover a elaboração psíquica dos efeitos da lesão cerebral e de suas consequências, permitindo a expressão da experiência subjetiva, a relação entre o psiquismo e a experiência da doença, suas consequências motoras, cognitivas e perceptivas. 

 

ABSTRACT:

 

This article presents the concept of Neuropsychoanalysis their theoretical origins and some of his contributions to the fields of neuroscience and psychoanalysis. It also contains a summary of the latest advances in neuroscience, it comes from the concept of New Unconscious. And has as main objective to verify the interface in the field of neuroscience and psychoanalysis in different points of view. This is a review study conducted from November/2012 to abril/2013 using descriptors SciELO, Google Scholar, and MeSH and based, original and review articles on neuro-psychoanalysis, psychoanalysis and neuroscience. It can be concluded that the study contributes neuropsychoanalysis to discover which brain areas correspond to the phenomena described by Freud, so that there is an expansion of the epistemological limits of the areas in question in an attempt to present concepts, contributions and roots neuropsychoanalysis, comprising knowledge that neuroscience and psychoanalysis have in common.

 

 

 

Key-words: Psychoanalysis, Neuroscience; Neuropsychoanalysis; New Unconscious, Unconscious.

 

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Daniel J. Tomasulo
Dr.Daniel J. Tomasulo, Ph.D., TEP, MFA é um psicólogo, treinador psicodrama e escritor sobre corpo docente da Universidade de Nova Jersey City

Dr. Fernando Weikamp -Neuropsicanalista - Psicanalista Clinico - CBP/SP nº 00439 Faculdades Médicas de Psicoterapia Unidas FAMEHP -São Paulo,- Diplomado em psicologia pela Universidade do Arizona em Master of Psychology and Medicine -Membro ABENEPI -Associação Brasileira de Neurologia,Psiquiatria Infantil -Membro da Sociedade Brasileira de Psicologia -Membro da Associação Brasileira de Medicina Complementar -Membro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental e Sexólogo

 

 

Informação

 

 

Atenção Internautas

 O Consultorio da Mente alerta aos internautas que estão sendo enviadas mensagens eletrônicas em nome do Consultorio da Mente. As falsas mensagens informam que o usuário tem algum tipo de divida . Depois há um pedido para "clicar" em um link anexado a mensagem.

O Consultório da Mente não envia mensagens eletrônicas sobre cobranças . Somente entra em contato via e-mail com usuários que utilizaram os canais apropriados no site.

Portanto, ao receber a mensagem suspeita, orientamos que ela seja encaminhada para o endereço crime.internet@dpf.gov.br e, logo em seguida, apagada.

 

 

 

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